

Onde estão as mulheres no Medium Brasil?
Hackeando Representatividade
Motivada pelo texto da Tracy Russo, o Medium: We have a problem, resolvi fazer duas pesquisas hoje: saber como posso indicar um texto do Feminismos para a curadoria oficial do Medium e pesquisar sobre mulheres no Medium Brasil. Uma certa vez, ouvi que o Medium foi um dos veículos que mais deu voz ao feminismo em 2015, servindo como uma das principais plataformas de difusão de ideias e representatividade feminina na Web. Para minha (não tão grande) surpresa, quando vi a lista de escritores do Medium Brasil, percebi que na realidade essa história não é tão bonita. Entre os três editores da publicação não há diversidade étnica ou de gênero — apenas homens brancos. Ao partir para a lista de autores escalados para a publicação, das cento e setenta e oito pessoas que fazem parte do Medium Brasil, trinta são mulheres, ou seja, apenas 16,8% de todo mundo que escreve para o canal.

Falar que o Medium é plataforma de empoderamento e proliferação da voz de mulheres, enquanto os editores homens do meio decidem que apenas 16,8% das pessoas que escrevem para a publicação oficial no país serão, de fato, mulheres, é cruelmente contraditório e demonstra (em pequena escala) a cegueira instituída entre os veículos de mídia (de massa ou alternativos) no Brasil. Nem em uma plataforma de conteúdo livre conseguimos espaço de igualdade e relevância editorial.

Ao entrar na página principal da publicação, podemos ver que os artigos em destaque escritos por mulheres datam até 25 de fevereiro de 2016, enquanto os escritos por homens datam até 03 de março do mesmo ano. Ok, além de estar desatualizado em geral, tendo em vista a quantidade de acontecimentos relevantes que têm sido diariamente analisados aqui na plataforma, temos também um agravante de nenhum texto atual escrito por mulheres nessas últimas três semanas (que incluíram o Dia da Mulher) aparecendo em destaque na publicação. Onde elas estão? Vi diversos artigos de alta qualidade sendo escritos por mulheres aqui na plataforma nessas mesmas três semanas, e ainda assim não consigo encontrar a razão para elas não terem visibilidade dentro de um canal construído para levarmos nossas histórias e ideias, como o próprio subtítulo propõe.
O Medium prega uma produção inovadora, com histórias sendo contadas a partir de diferentes perspectivas e que fomente novas ideias. Sem uma gama diversa de escritores e escritoras que vivenciam nossa realidade de maneiras plurais, isso não é possível. Porém, não é o que está refletido no time de autores do canal oficial do país.
Se o número de mulheres autoras e editoras no canal se equiparasse ao de homens, esse espaço contaria com vozes femininas mais ativas? Provavelmente, uma vez que quebraríamos o perfil predominante dos escritores no país que, segundo pesquisa realizada pela Professora Doutora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), é de homens (93,9%) brancos (72,7%) do sudeste (47,3% no RJ e 21,2% em SP). Nada muito diferente da realidade do hall de escritores do Medium Brasil, no fim das contas.
Deixamos de nos assustar com a estatística brasileira de sermos mais da metade da população, mas raramente ocupamos mais da metade dos espaços políticos e econômicos, o mesmo valendo para o campo da mídia e literatura. Temos índices mais altos de escolaridade para compensar as disparidades do mercado de trabalho em relação aos salários praticados entre homens e mulheres, e ainda precisamos ouvir que existem campos profissionais segredados por gênero/sexo por conta de construções sociais que impedem o desenvolvimento de diversas capacidades das mulheres, devido à maneira que socializamos gêneros. Pra piorar a situação, até quando atuamos nas áreas que são vistas como femininas, ainda assim encontramos uma força de trabalho masculina opressora e preconceituosa.

Em uma indústria onde mulheres ainda precisam brigar para sequer serem pagas pelo conteúdo que produzem, utilizarem seus nomes reais ou por extenso sem medo de retaliação por parte das editoras ou preconceito construído pelo público ao longo dos tempos, qual seria o papel ideal do Medium Brasil, para que ele possa se declarar, de fato, uma plataforma que sustenta ideais igualitários de produção e publicação de conteúdo? Nada muito difícil de se responder: fomentar a produção editorial de mulheres é dar visibilidade para elas nos espaços existentes, ou mesmo criar novos espaços onde elas possam conquistar audiência e também dar visibilidade para esses grupos, projetos e coletivos que surgem sem parar por aí. É mostrar que não existe uma preferência na escolha entre autores e autoras para serem listados nas publicações gerenciadas pela plataforma ou entre quem gerencia as mesmas, incentivar pautas variadas para essas mulheres e dar relevância a conteúdos produzidos em áreas de conhecimento tradicionalmente conhecidas pela dominância masculina.
E aí, Medium Brasil, o que você vai fazer? (Dica: vocês podem substituir todos os autores homens de língua estrangeira que atualmente fazem parte da publicação por mulheres brasileiras. Seria um bom começo.)




